Se você achava que 2025 seria apenas “mais um ano” na montanha‑russa das criptomoedas, prepare‑se: o jogo virou. Segundo dados compilados pela Chainalysis, o crime envolvendo criptoativos não só cresceu, como quebrou recordes que até ontem pareciam impossíveis. O volume de endereços ilícitos aqueles ligados a golpes, ransomwares, mercados da dark web e afins recebeu ao menos 154 bilhões de dólares ao longo do ano.
Sim, isso representa um aumento de 162% em relação a 2024. E antes que alguém pense em empurrar a culpa só para os “espertinhos do mercado”, as sanções internacionais foram um dos principais motores dessa estatística, com um crescimento dramático de 694% no volume associado a entidades sancionadas.
Não é exagero dizer que 2025 transformou o ecossistema cripto em um espelho distorcido da geopolítica global: estados‑nação, redes de lavagem profissionalizadas e hackers superando até filmes de Hollywood no quesito audácia. E se você acha que estou dramatizando, segura aí enquanto eu destrincho isso com um olhar jornalístico sem romantização.
Os Estados‑nação que entraram de cabeça no jogo sujo
A narrativa de que só criminosos “individuais” usam cripto para atividades ilícitas já era. Em 2025, vimos países inteiros usando blockchains como se fosse o correio clandestino do submundo financeiro.
O exemplo mais flagrante? A Rússia. O token lastreado em rublo, conhecido como A7A5, movimentou impressionantes 93,3 bilhões de dólares no seu primeiro ano de existência. Para especialistas, esse número não é apenas sobre volume de transações: é uma evidência concreta de evasão de sanções usando cripto, num movimento que faz parecer modesto qualquer esquema de pirâmide financeira.
Do outro lado do espectro geopolítico, o Irã continuou a usar intermediários e redes “proxy” para lavar dinheiro, vender petróleo de forma não oficial e até financiar compras de armas. Apenas as carteiras diretamente ligadas a essas operações movimentaram mais de 2 bilhões de dólares, todas elas designadas em listas de sanções internacionais.
E não posso esquecer da Coreia do Norte. Programadores e hackers associados ao regime roubaram cerca de 2 bilhões de dólares em cripto em 2025. Dentro desse total, destaca‑se o que já virou “o maior heist da história cripto”: a exploração da plataforma Bybit em fevereiro, que rendeu quase 1,5 bilhão de dólares. Não são mais adolescentes no porão com laptop; é espionagem econômica viralizada.
Resultado? Uma mudança tectônica no crime digital: países estão agora integrados à mesma infraestrutura que antes só facilitava crimes isolados ou organizados obscuros. Eles aproveitam provedores de infraestrutura ilícita verdadeiros “full stack” de serviços para executar operações massivas sem queimar seus próprios ativos, o que complica ainda mais o trabalho de quem tenta rastrear e limitar essas atividades.
Stablecoins o novo ouro dos fora da lei
Se você acompanha cripto faz tempo, sabe que stablecoins dominaram o ecossistema por sua estabilidade de preço e facilidade de transferência. Em 2025 isso se tornou uma faca de dois gumes mais precisamente, o favorito dos criminosos.
Segundo o relatório, 84% de todo o volume associado a atividades ilícitas foi em stablecoins. Sabe o que isso significa? Que os criminosos, de hackers a estados‑nação, estão usando justamente os ativos que a indústria promove como solução “estável e confiável” para movimentar dinheiro sem volatilidade.
Enquanto exchanges, bancos e plataformas de pagamento dependem dessas moedas para liquidez e liquidações, os criminosos exploram essa mesma estrutura com uma eficiência que faria qualquer trader institucional virar fã. E, veja bem, isso não é apenas sobre lavagem de dinheiro: é uma sinalização de que os mecanismos atuais de conformidade estão olhando para o lugar errado.
Redes chinesas de lavagem: a infraestrutura que ninguém queria ver
E porque complicar quando se pode profissionalizar, certo? Outro ponto fundamental de 2025 foi o fortalecimento das chamadas Redes Chinesas de Lavagem de Dinheiro (CMLNs). Esqueça aquela imagem de “túnel secreto” cheio de malas de dinheiro; essas redes operam com tecnologia, alcance global e oferta de serviços turnkey que fariam qualquer banco tradicional coçar a cabeça.
Elas vão desde “lavagem como serviço” até infraestrutura técnica para apoiar desde o produto dos hacks norte‑coreanos até esquemas de evasão de sanções e até financiamento terrorista. Ao oferecer tudo “end‑to‑end”, essas redes tornaram o combate ao crime financeiro algo próximo de resolver um cubo de Rubik… às cegas.
Quando o digital atinge o mundo real
Agora, se você pensa que isso tudo é “só zeros e uns numa tela”, a Chainalysis fez questão de enfatizar: o crime cripto está cada vez mais ligado à violência no mundo físico. Estamos falando de tráfico de pessoas financiado via carteiras digitais, ataques com coação e outras atrocidades que coincidem com movimentações de cripto, às vezes estrategicamente alinhadas à volatilidade do mercado.
Esse tipo de cruzamento entre crimes “online” e danos “offline” exige mais do que algoritmos de compliance em exchanges: pede cooperação real entre forças de segurança, reguladores e plataformas cripto. Algo que, honestamente, ainda anda mais devagar do que deveria.
Apesar de todo esse volume colossal ligado a atividades ilícitas, a Chainalysis lembra que isso ainda é menos de 1% do total transacionado no mercado cripto. Matemática pura: o mercado é grande o suficiente para que um percentual pequeno represente dezenas de bilhões de dólares de crime.
Mas a realidade desconfortável é esta: um pequeno percentual ainda pode mover montanhas (de dinheiro) e mudar narrativas políticas e econômicas. Estados ameaçados por sanções podem simplesmente ir para a blockchain. Organizações criminosas podem levantar fundos sem passar por bancos. Hackers podem agir com impunidade quase absoluta.
E no meio disso tudo, fica a pergunta que não quer calar: quem está realmente no controle dessa narrativa?

